Luis Nassif: O que Carlinhos Cachoeira e Sérgio Moro têm em comum

Há mais pontos em comum entre o bicheiro Carlinhos Cachoeira e o justiceiro Sérgio Moro – o juiz que rompeu com os limites jurídicos na Operação Lava Jato – do que possa supor a vã leitura dos clássicos criminais: ambos dividem a mesma musa.
Na canção “Umas e Outras”, de Chico Buarque, Moro seria “umas”.
Se uma nunca tem sorriso
É pra melhor se reservar
E diz que espera o paraíso
E a hora de desabafar
A vida é feita de um rosário
Que custa tanto a se acabar
Por isso às vezes ela pára
E senta um pouco pra chorar
Que dia! Nossa, pra que tanta conta
Já perdi a conta de tanto rezar
Carlinhos Cachoeira seria “outras””:

Se a outra não tem paraíso
Não dá muita importância, não
Pois já forjou o seu sorriso
E fez do mesmo profissão
A vida é sempre aquela dança
Onde não se escolhe o par
Por isso às vezes ela cansa
E senta um pouco pra chorar
Que dia! Puxa, que vida danada
Tem tanta calçada pra se caminhar
Ao contrário da freira e da prostituta, no entanto, o justiceiro e o chefe de quadrilha são muito mais parecidos, por terem caso com a mesma mulher: a revista Veja. E não propriamente por suas (delas) virtudes.
Veja é a companhia que pediram a Deus (ou ao diabo). Atende a seus interesses – desde que conciliados com os dela; presta-se aos serviços sujos que só as amantíssimas dedicam à pessoa amada; permite que ambos atinjam seus objetivos, quaisquer objetivos, ao falar por eles o que não poderiam dizer em nome próprio e mentir sobre pontos que, não constando dos autos, não poderiam ser ditos por ambos, Moro por submissão à legalidade, Cachoeira por medo da lei.
Ambos estão longe de acreditar nas virtudes excelsas da revista. Pelo contrário, o que os fascina é a falta de escrúpulos, a capacidade de tangenciar seguidamente os limites da legalidade, de manipular informações em favor da parceria, fazendo o trabalho sujo que nem justiceiro nem o bicheiro podem perpetrar à luz do dia, pois coibidos por lei.

O fascínio dos salões

Graças à revista, ambos puderam ser aceitos nos grandes salões, Moro acreditando que de forma permanente, Cachoeira, por sua profissão mais instável, apenas durante algum período, até ser alvo da Operação Monte Carlo da Polícia Federal.
No 9o Fórum Nacional dos Editores de Revista, Moro será recebido pessoalmente por Giancarlo Civita, o dono da Veja, para a palpitante palestra“O jornalismo investigativo de qualidade como pilar da democracia e das instituições brasileiras”.
Externará, em caráter público, o mesmo entusiasmo com o papel ético do “jornalismo investigativo de qualidade” expresso por Cachoeira em caráter privado, apreciando uma capa da Veja – com material que ele havia fornecido – e bradando de peito estufado para seu comparsa Cláudio Abreu: “Nós estamos ajudando a limpar o Brasil”, conforme escuta captada pela PF.
Ou quando, dentro do acordo com a revista, Veja transformou seu afilhado, então senador Demóstenes Torres, em paladino da moral. Graças a essa fama, Demóstenes pode ampliar exponencialmente sua influência em benefício dos negócios da organização criminosa.
A entrevista de Páginas Amarelas com o paladino foi celebrada no bunker de Cachoeira, talvez com a mesma euforia com que, no bunker da Lava Jato, procuradores, delegados e o juiz Moro celebram as capas que emplacam:
CLAUDIO – …”o Combativo Parlamentar diz que o Congresso age bovinamente, o TCU está sobre fogos, os promotores cansados, situação que põe em risco o Estado de direito do Brasil”. Mole, cara?
CARLINHOS – É foda mesmo viu! Fala bem aí?
CLAUDIO – E muito bem,
CARLINHOS e o amigo lá, o Inspetor da Receita hem, me ligando, me parabenizando e agradecendo, me convidando e o pessoal no cerimonial ligando pra me colocar lá no estande de autoridades na destruição dos produtos piratas
CARLINHOS – Você̂ que mais traz né, cara?
CLAUDIO – Como é que é?
CARLINHOS – Você̂ é quem mais traz
CLAUDIO – Faz o que, o viado?
CARLINHOS – Você̂ é o que mais traz
CLAUDIO – Que mais traz?
CARLINHOS – É, uai!
CLAUDIO – Mas eu trago produtos piratas, porra?
CARLINHOS – Ah, pirata não, você̂ traz os produtos, né (…)
CLAUDIO – É, show de bola aqui viu, bicho, show de bola, tá falando bem cara. Eu li a reportagem aqui no IPAD.
O show de bola da Veja é velho conhecido de Moro.
Como especialista em organizações criminosas, certamente acompanhou todos os factoides da revista visando beneficiar Cachoeira, através de ataques a seus adversários. Acompanhou os assassinatos de reputação de inúmeros inocentes.
É certo que justiceiro que se preze não tem que se preocupar com inocentes. Inocentes são apenas paspalhos que estão na hora errada no lugar errado, e que investigações malfeitas colocam na nossa frente apenas para atrasar as condenações dos culpados.
Moro entendeu claramente que o jogo Cachoeira-Veja visava trazer ganhos recíprocos, um ganha-ganha prático, objetivo, direto.

A hipocrisia moralista

Um como oficial da lei, outro como marginal, tanto Moro quanto Cachoeira praticam a mesma hipocrisia moralista que marca a história política não apenas do Brasil, mas das nações em geral.
Historicamente, a denúncia da corrupção sempre fez parte do arsenal da mídia, de acordo com uma métrica traçada pela própria imprensa.
O exercício do poder exige um conjunto de pactos políticos e econômicos, nem sempre transparentes, nem sempre legítimos. O público preferencial da mídia – a classe média – não tem noção mais aprofundada sobre as formas de apropriação do orçamento público pelos diversos grupos políticos, o impacto de operações anti-sonegação anuladas por interferência política, o valor econômico das concessões de rádio e televisão distribuídas como moeda de troca.
Muitas vezes o denuncismo é ferramentas de chantagem, moeda de troca. É como se as irregularidades estivessem expostas em grandes prateleiras, com todo tipo de embalagem. À mídia basta selecionar o alvo recalcitrante, buscar a irregularidade correspondente e tratar de superdimensioná-la com manchetes e interpretações facilmente digeríveis pelos leitores.
Nem se busque minimizar os escândalos da Petrobras. Como diz a Força Tarefa – com toda propriedade – é o maior escândalo de corrupção já descoberto no país.
Ao definir o foco único da corrupção, no entanto, a mídia abre a gaiola para todos os aliados poderem se esbaldar com o queijo público sem serem incomodados. Líderes da oposição poderão preservar as práticas denunciadas em seus adversários, poderão manter contas em paraísos fiscais, em nome de offshores (igualzinho Eduardo Cunha), poderão receber de empreiteiras igualmente beneficiadas por eles, sem serem incomodados.
O pacto exige que delegados, procuradores e o juiz Moro dividam os “bandidos” em dois grupos: para os “bandidos deles”, pau; para os “nossos bandidos”, condescendência total.
E, assim como no pacto Veja-Cachoeira, ambos os lados cumprem o que prometem.

O Estadista Moro

Dizem que os Estadistas são amorais. Fecham acordos com o diabo para alcançar seus objetivos. Aliam-se a criminosos, se for necessário, estendem os limites das leis, tudo o que for necessário para preservar o Poder.
Nesse sentido, Moro é o desenho completo do Estadista sem escrúpulos, que ocupa rigorosa e amplamente todos os espaços legais, vale-se do clamor da turba para ampliar esse espaço, embora não seja claro o tipo de Estado que aspire.
Não se entenda esse “sem escrúpulos” como indício de desonestidade financeira ou coisas menores. Significa que, para atingir os objetivos de Poder (com P maiúsculo), vale tudo: transformar pecador em santo; venal em confiável. E o pior jornalismo da história em “jornalismo investigativo de qualidade”.
No caso da mídia, não há sequer a necessidade de uma delação para se redimir: basta entrar no jogo e Moro fechará os olhos, por exemplo, à capa de Veja sobre o grampo sem áudio, que registrou a conversa camarada entre os ínclitos Gilmar Mendes e Demóstenes Torres, visando derrubar o delegado Paulo Lacerda e o Sérgio Moro da Satiagraha – o juiz Fausto De Sanctis.
Deixará de lado a manipulação grosseira de Veja de relatório denunciando grampo no STF (Supremo Tribunal Federal), inclusive com apresentação de dados falsos  sobre os equipamentos da ABIN (Agência Brasileira de Inteligência).
Esquecerá a maneira como, com a ajuda inestimável da mídia, foram abafadas as CPIs do Banestado, de Cachoeira.
Para quê se importar com grandes pecados do passado, se os pecados do presente ajudam a viabilizar a Lava Jato e a abrir os salões da capital para o juiz modesto do interior (perdão, Paraná!), que se fez à custa de seu próprio esforço e de uma notável (sem ironia) visão estratégica?
Pouco importa se a revista estimula a intolerância, se blinda os aliados, se ajuda a alimentar um clima que expõe as vísceras do que de pior o país tem. A intolerância é aliada tanto de Moro quanto de Cachoeira, por impedir as filigranas, a divulgação de ângulos que fujam da narrativa criada por ambos.
Na CPI de Cachoeira, um trecho do relatório aborda a necessidade de reconhecimento social por parte de Cachoeira, de ser recebido nos salões, ser considerado. Não conseguirá, como Moro, ser premiado pelo O Globo, ser acolhido por Giancarlo Civita, porque as semelhanças entre eles terminam por aí. Um ainda poderá ambicionar a união estável com papel passado; o outro sempre será a amante oculta.
No fundo, esta é a moeda do suborno, acolhida pelos grandes e seletivos moralistas, o grande instrumento da mídia, quase tão forte como os assassinatos de reputação: o uso despudorado da lisonja, ferramenta que toca o coração dos fracos e amolece a vontade dos fortes.
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