Helena Chagas: Só é possível enganar todos se todos quiserem ser enganados

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Por Helena Chagas – Do Fato Online

Li todas as matérias e assisti a todas as entrevistas da investida de mídia do deputado Eduardo Cunha de sexta-feira para cá. Até agora, não encontrei uma alma sequer que tenha se declarado convencida pelos argumentos do usufrutuário de recursos administrados por um trust e amealhados com negócios de venda de carne enlatada ao Congo na década de 1980. Ainda que tivesse documentos comprovando a versão, restariam inexplicados o desconhecimento da origem de 1,3 milhão de francos suíços que foram parar na conta e a decisão do homem público de nada declarar sobre a dinheirama à Receita, ao Banco Central ou à Justiça Eleitoral, como manda a lei.
A defesa de Cunha terá sido, então, um tiro que saiu pela culatra, pois além de não convencer ninguém, ainda o levou a confessar publicamente crime de sonegação. Isso, aliado à constatação de que faltou com a verdade ao negar ter contas no exterior – o beneficiário de  recursos administrados por um trust  é, na verdade, seu verdadeiro dono – é mais do que suficiente para amparar uma decisão de cassação por quebra de decoro.
Eduardo Cunha, então, está liquidado, certo? Errado, ainda que incompreensível.
Abraham Lincoln disse certa vez que é possível enganar todos durante certo tempo, ou alguns durante todo o tempo, mas que não se pode enganar todos todo o tempo.  As peripécias do presidencialismo à brasileira poderiam bem acrescentar nova hipótese – a de que todos concordem em ser enganados, desde que a situação lhes traga alguma vantagem.
Lamentavelmente, podemos estar chegando a esse ponto no caso do presidente da Câmara, pelo menos no que diz respeito ao establishment político, aqueles que comandam as decisões. Afinal, se não apareceu até agora ninguém para sair em defesa de Cunha a partir dos argumentos por ele apresentados, tampouco se vê, por parte de lideranças maiores e influentes, movimentação mais explícita para acelerar a cassação. Nem no governo nem na oposição.
O Planalto de Dilma e o PT de Lula não ousam dar um passo contra Cunha. Além de devolver temporariamente à gaveta os pedidos de impeachment, o entendimento com o deputado permitiu ao governo e ao PT rejeitar convocações indesejadas de ex-auxiliares e até do filho do ex-presidente Lula nas CPIs do Carf e do BNDES.
Com a corda no pescoço, o governo não tem condições de abrir mão do armistício oferecido por Cunha, sobretudo se ele incluir, nas próximas semanas, a votação de matérias essenciais como a DRU, a repatriação de recursos ilegais no exterior e a mudança na meta de superavit deste ano.
No lado da oposição, os defensores do impeachment também vêm poupando Cunha. Ele lhes deu esperança de que, a certa altura, pode  acolher o pedido feito pelos juristas Helio Bicudo e Miguel Reale Jr. Espertamente, o deputado vem mantendo a chama acesa, vazando pareceres favoráveis da área técnica e alimentando o noticiário.
Como, nos últimos dias, ficou claro que o impeachment tornou-se hipótese mais remota – até pelo enfraquecimento de Eduardo Cunha –, é possível que alguma coisa se mova na oposição. Alguns de seus integrantes começam a achar que vão pagar caro por ficar ao lado do presidente da Câmara – e do Planalto – em meio a acusações a cada hora mais graves.
O senador Aécio Neves deu a senha no fim de semana em declarações nas quais considerou muito graves as acusações. Ainda que acanhadas, as manifestações do “fora Cunha” no domingo também podem encorajar alguns a pular do barco.
Mesmo assim, parte da oposição, sozinha,  não faz verão. Os mais experientes observadores do Congresso não acreditam em desfecho no curto ou no médio prazos. Entre procrastinações diversas, o processo no Conselho de Ética da Câmara levou quase um mês para começar a tramitar, apesar do discurso de deputados de que querem investigar o colega. Será? O que se sabe é que, entre prazos de acusação e defesa, oitivas, recessos, o processo pode levar meses, até mais de um ano, chegando indefinido ao final do mandato de Cunha na presidência da Casa – o que ele quer.
Pode ser que sim, pode ser que não. As próximas horas serão decisivas, e o termômetro da reação às explicações de Eduardo Cunha, sobretudo na sociedade, pode mudar a embocadura das coisas. Ou não. Até agora, o que mais espanta – e tira o restinho de fé que ainda se pode ter nas instituições políticas – é a ousadia do acusado em contraponto à pusilanimidade dos que, em tese, são seus acusadores.
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