O herege Leonardo Padura

O autor do aclamado ‘O homem que amava os cachorros’ conversou com a Carta Maior sobre literatura, história e as mudanças que estão ocorrendo em Cuba.

Léa Maria Aarão Reis* – Carta Maior – 04/11/2015

reprodução

Foi de volta de Oviedo, na Espanha, onde recebeu, há duas semanas, o prestigioso prêmio de literatura Princesa de Asturias, considerado o Nobel da lingua espanhola, que o escritor cubano Leonardo Padura Fuentes, de 60 anos, conversou com Carta Maior sobre suas expectativas diante das mudanças políticas e culturais que estão por ocorrer, no país; sobre literatura, sua rotina de trabalho e a vida no seu adorado bairro de Mantilla (um bairro desconhecido pelos turistas, na periferia da cidade), em Havana, a cidade onde nasceu e pela qual nutre grande amor. ”Eu sou desta cidade e esta cidade é minha, com seus edifícios, seu mar, sua gente, sua cultura e sua música,” ele diz. Autor de obra literária reconhecida em diversos países e traduzida na Argentina, Portugal, Espanha, França, Estados Unidos e Inglaterra, e do consagrado romance O homem que amava os cachorros*, sobre a vida no desterro de Leon Trotsky, este habanero apaixonado pela sua terra e orgulhoso das suas raízes acaba de lançar, no Brasil, outro eletrizante romance misto de literatura noir com romance histórico. Nele, mais uma vez pontifica o seu personagem famoso, o detetive Mario Conde. Hereges é uma elegia à liberdade de um garoto judeu refugiado em Cuba durante a Segunda Guerra Mundial; de um aspirante a pintor, na Amsterdã do século XVII, que rompe com os preceitos da sua religião ao buscar os ensinamentos de Rembrandt e de uma jovem cubana, nos dias atuais, procurando afirmar as suas paixões. Em comum, os três personagens nutrem um amor herético pela sua própria liberdade.
No teatro Campoamor, em Oviedo, para uma plateia de 1 600 pessoas, Padura fez um belo discurso onde se declarou, mais uma vez, um apaixonado pelo seu país. “Soy cubano por mis 64 costados”, disse. “Solidariedade, fraternidade e humanismo foram a herança que meus pais habaneros me deixaram.”
A seu lado estava o cineasta Francis Ford Coppola, também agraciado com o Princesa de Asturias, de quem Padura é fervoroso admirador e a quem não conhecia pessoalmente. Conversaram? “Sim, um pouco,” responde o cubano, com seu habitual bom humor e absoluta simplicidade. ”Ele parecia cansado e com pouca vontade de falar. Mas eu lhe dei de presente um exemplar da edição americana de O homem que amava os cachorros…”
Sua entrevista a Carta Maior:
Carta Maior: Você diria que ‘hereges’ são todos os libertários independentes que não compartilham do pensamento único? Eles são o contraponto dos que se encontram no poder, até mesmo nas democracias?
Padura: A palavra herege ganhou um significado negativo quando a igreja a usou para qualificar aqueles que não compartilhavam de seu credo e da sua ortodoxia. Este valor negativo se estendeu a toda a sociedade. Na realidade, um herege é um inconformado, alguém que pensa diferente sobre determinado assunto – pode ser, inclusive, um revolucionário. Pior que a heresia, sem dúvida, é o pensamento único, a ortodoxia, a manipulação do pensamento, a imposição de ideias. Isto ocorre em qualquer sistema, ele seja ou não democrático como a história nos mostrou, tantas vezes, e como nos mostra a realidade de hoje.
CM: O ódio coletivo, virulento, no caso através da perseguição aos judeus, como você mostra no seu livro, parece não ser, hoje, privilégio de determinados povos. Ele parece consumir a todos, em todos os lugares e também na América Latina. É um ódio que estava hibernando e emergiu agora?
Não cheguei a pensar no assunto desta maneira como você apresenta na sua pergunta e não quero ser superficial ao respondê-la. Além do mais, não sou sociólogo nem filósofo; sou escritor… Mas posso dizer que sim, o ódio é um elemento próprio da condição humana, bem próximo da inveja (os dois sentimentos estão muito, muito perto um do outro.) São sentimentos dos mais daninhos e comuns. Há pessoas, no mundo, que, inclusive, o praticam de modo quase profissional. Por isto escrevi um artigo intitulado “Os profissionais do ódio”. Eu, pessoalmente, sofri o ódio por ser um pouco herege, e a inveja por ter alcançado certo êxito no meu trabalho.
CM: Assim como no Brasil, em Cuba a inveja é considerada uma “doença nacional”?
Sim, é uma doença nacional e sobre isto fala um dos meus personagens de Hereges.
CM: Há simetria entre aqueles refugiados que chegam ao porto de Havana fugindo dos nazistas a bordo do navio do St. Louis, no seu livro, (um episódio real) e não obtêm autorização para desembarcar – nem visto para entrar nos EUA e no Canadá – com os refugiados que forçam as portas da Europa, hoje, e são rechaçados? A perseguição política, religiosa, étnica, é, no fundo, a perseguição ao Outro, diferente, e por isto tão ameaçador?
Sim e não. Cada época histórica tem suas próprias e peculiares circunstâncias. Isto diferencia uns refugiados de outros. Mas no fundo há semelhança porque uns e outros fogem da mesma coisa: a barbárie colocada em prática em nome de uma ideia superior de caráter religioso ou político ou étnico. E quando os de outros países não são solidários com esses que fogem e pedem refúgio, deveriam lembrar que certa vez, no passado, eles foram refugiados e que alguma vez podem voltar a sê-lo.
CM: Você fala da importância de sonhar com a utopia possível. Quais seriam essas utopias, hoje, depois do pseudo naufrágio da utopia socialista? Ou ela está viva, porém dando mais relevo à liberdade individual?
Acho que devemos sonhar com um mundo melhor, com mais igualdade, mais democracia, mais liberdade, mais oportunidades, menos pobreza… Como conseguiremos? Não sei. Como escritor e como pessoa civil eu apenas posso desejar isto; e com minha obra, trabalhar para que este mundo seja sonhado. Uma sociedade onde exista un máximo de liberdade e um máximo de democracia com certeza é melhor do que outra que não cultive esses valores. Uma sociedade sem pobreza e com oportunidades para todos é melhor do que as sociedades existentes atualmente. Creio que não podemos deixar de aspirar a estas utopias. A humanidade seria muito melhor do que é hoje.
CM: E qual seria o ‘novo homem’ do século XXI?
Não sei. Apenas queria que ele fosse melhor que o do século XX… A ciência, o conhecimento, a tecnologia progrediram muito e quem sabe os homens convertam esse progresso, no século XXI, em uma forma melhor de viver em sociedade.
CM: Manejar o tempo é um dos seus maiores atributos como escritor. Você vai e vem, passeia pelas décadas e pelos séculos com grande desenvoltura. Suas ‘viagens’ no tempo estão relacionadas à experiência pessoal de vida em um país com fases históricas tão distintas? Anos 60, pós-revolução, período especial, embargo, abertura maior ao turismo.
A história é uma grande mestra de vida: ela nos ensina o que os homens fizeram através do tempo e pode servir para não cometermos os mesmos erros … mesmo que nós, homens, demonstremos que somos suficientemente estúpidos para aprender estas lições da história. A respeito de Cuba, claro, as coisas mudam com o tempo e também mudam vistas da perspectiva da pessoa que as oberva. Para alguns, Cuba não muda; para outros, sim. Para alguns Cuba não deveria mudar; para outros Cuba tem que mudar… Esta diferença de critérios é normal e creio que necessária. Eu penso que Cuba deve mudar: uma sociedade que não muda para, não progride… é preciso mudar, avançar.
CM: Seu realismo já levou alguns críticos a lembrar de Balzac a propósito de O homem que amava os cachorros. Mais uma vez, em Hereges, o leitor percebe, vívidos, os cheiros, as cores e os sons da Amsterdã da época e de Havana; dos jantares dos amigos de Conde na casa de Carlos; da Miami dos anos 60. Você lê e relê Balzac?
Não, não leio Balzac há anos. Li quando era estudante… Mas o que alguém aprende bem não esquece. Também há quem veja uma relação entre o meu realismo e o de Tolstoi, que é mais épico… De qualquer modo, ter antecedentes como eles é um luxo. Mas eu sou um escritor de fim do século XX e do século XXI e creio que o meu realismo tem muito mais a ver com outros autores desta minha época e do meu estilo.
CM: E qual é a sua Havana? 
A minha Havana é toda a Havana. Eu sou desta cidade e esta cidade é minha. Vivo em un bairro ao sul da cidade. O meu bairro se chama Mantilla e aqui nasceram meu pai e meus avós. É um lugar comum, mas pelo qual sinto un grande amor e tenho um profundo sentido de que pertenço a ele.
CM: Assim como Trotsky, você é um obstinado? É um otimista? Ou um realista?
Sou um obstinado sim, como eu disse no discurso ao receber o premio Princesa de Asturias, há alguns dias. E quero ser realista, e me proponho ser um otimista… ainda que muitas vezes seja pessimista, esta é a verdade.
CM: Você escreve todos os dias? É um escritor compulsivo? 
Sim, escrevo todos os dias, de manhã, entre sete horas até uma da tarde… se não tenho que responder a entrevistas.
CM: Seu próximo romance será sobre cubanos em Miami como foi publicado? 
Não. É sobre uma virgem negra catalana medieval e uma virgem negra cubana, muito popular no meu país, a Virgem de la Regla**… E será uma outra história do meu personagem Mario Conde; porém ainda está bem no começo.
CM: Como você vê o papel e o trabalho da Casa de las Americas? Ele continua sempre importante?
Sim, há 50 anos a Casa de las Américas tem feito um grande trabalho em promover, conservar e unir a cultura latinoamericana. E segue nesta tarefa tão necessária.
CM: Padura, você está apreensivo com a abertura Cuba/EUA? Por enquanto ela é simbólica, diplomática. O embargo persiste. Uma invasão econômica americana poderia ser desastrosa? “A influência cultural é muito forte”, você comentou, em uma entrevista, a respeito de uma invasão cultural. 
Por enquanto as relações são políticas e diplomáticas, com alguns encontros culturais; mas o que pode ocorrer, no futuro, não se sabe. Para começar, é preciso que o embargo desapareça. Que os norteamericanos possam viajar a Cuba livremente e que à minha sogra não neguem o visto norteamericano como vem ocorrendo, como se ela fosse uma terrorista, quando o que ela quer é apenas visitar sua irmã… Além do mais, em tudo há perigo. Atualmente, anuncia-se que comer carne dá cáncer… Tudo é perigoso… Dizer a verdade é perigoso…
CM: Pode-se separar a responsabilidade do cidadão da responsabilidade do escritor e da responsabilidade política?
Não, porque sou uma mesma pessoa. Mas posso separar a política da literatura e é o que faço nas minhas novelas. Não posso e não quero usá-las com propósitos políticos porque, além do mais, não sou militante em nenhum partido político.
*Publicado, assim como Hereges pela Editora Boitempo
** Na santería cubana é Iemanjá. Padroeira do Porto de Havana.
Créditos da foto: reprodução
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s