Luis Nassif: Dilma e a falta de conhecimento sobre o exercício do poder

A entrevista do Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo à revista IstoÉ tem duas explicações simples.
A primeira é que apenas seguiu uma das máximas do político temeroso: as maiores ameaças vêm dos inimigos. Dos amigos, no máximo críticas políticas. Foi por isso que escolheu uma das revistas mais implacáveis contra o governo Dilma Rousseff e o PT para mandar seu recado.
A segunda explicação é que Cardozo jamais foi de tomar decisão. Ele se tornou um especialista em fundamentações jurídicas como álibi para a não ação.
Nenhuma pessoa minimamente informada acredita que Cardozo acredita que esteja imbuído, na falta de ação, de excelsas virtudes republicanas.
Mas Dilma acredita.
Reside aí o busílis, a chave da questão: Dilma não tem a menor noção sobre os jogos do poder, as estratégias e subterfúgios utilizados nas guerras permanentes entre governo e oposição, comuns a qualquer país democrático.
Ela sempre demonstrou enorme acatamento  às normas hierárquicas que regem as estruturas burocráticas, nas quais as regras de comando são simples de assimilar: quem é chefe manda, quem é subordinado obedece. E se queixar de assédio moral é comportamento de frouxos.
A complexidade dos jogos de poder
Nos jogos de poder, no entanto, o cenário é outro.
A presidência da República é o cargo mais poderoso do país. Dentro do sistema de freios e contrapesos da democracia, o Presidente não comanda os demais poderes de forma direta. Tem que comandar negociando e manobrando de forma competente suas prerrogativas.
O Presidente assina demissões e promoções no governo central, elabora, promulga ou veta projetos de lei, define os rumos do orçamento, arbitra os ganhos do mercado financeiro, de setores sociais e econômicos, indica Ministros do Supremo e dos demais tribunais superiores, escolhe o Procurador Geral da República. Através de seus Ministros nomeia o delegado-geral da Polícia Federal e uma infinidade de cargos federais, define o rumo das verbas para estados, municípios.
Em cima dessa miríade de formas de relacionamentos e de comandos indiretos, há uma infinidade de possibilidades para costurar pactos, alianças.
Todo governante tem seus operadores pessoais, pessoas de extrema confiança que os alimentam de feedback, enviam recados, tornam-se extensões de seu poder.
Fernando Henrique Cardoso tinha o genro David Zilberstein, Jovelino Mineiro e Andrea Matarazzo. José Serra tinha Ricardo Sérgio, Valdimir Riolli e a própria filha Verônica, além de procuradores, delegados e jornalistas. Lula tinha Roberto Teixeira, Paulo Okamoto e Luiz Marinho. Itamar Franco tinha José de Castro, Djalma Morais. Assim como Serra, Jose Dirceu tinha um contingente apreciável em todos os escaninhos do poder, muito mais, aliás, do que recomendaria a prudência.
Tratam-se de preceitos básicos para o exercício do poder, mas que não fizeram parte do aprendizado de Dilma.
Sua saída, então, foi proclamar-se republicana e se escudar na falta de atuação de Cardozo.
O poder à deriva
Para Dilma, o conceito de republicanismo tem a mesma profundidade com que é percebido pelo leitor médio de jornal: governo honesto nada tem a esconder e em nada pode interferir. Por esse conceito, toda negociação tem que ser pública, nenhuma delas pode envolver interesses políticos ou pessoais. E, no final, os caçadores acabam matando o lobo e salvando Chapeuzinho.
Há duas evidências nas ações de governo em relação a operações criminais:
1.     Acobertar crimes é crime.
2.     Não administrar repercussões políticas é falta de responsabilidade institucional.
O que se cobra de Cardozo e Dilma não é a interrupção de inquéritos, mas a administração das implicações políticas dessas operações.
Se uma operação fixa exclusivamente em membros de um partido, poupando os de outros partidos, provoca um desequilíbrio político no país.
É o caso da blindagem do senador Aécio Neves. Ao não avançar nas investigações sobre sua conduta – tanto nas mesadas de Furnas como na conta em Liechtenstein – o Procurador Geral da República desequilibrou o jogo político em favor da oposição, contribuindo para a crise de governabilidade.
Quando investe contra a família de Gilberto Carvalho, com base em indícios frágeis de e-mails, a Zelotes atua politicamente.
Quando procura incriminar Lula por sua atuação diplomática na África, em favor de empresas brasileiras, ou por financiamentos à exportação de serviços, o Ministério Público atua politicamente.
Quando vazam seletivamente depoimentos de prisioneiros, delegados e procuradores atuam politicamente.
A posição cômoda de Dilma – “isso não é comigo” – é de uma auto-ilusão comovedora. É evidente que é com ela, na medida em que a soma de factoides amplia a crise política e de governabilidade.
Nem se pense que o PT saiba manejar os carreteis do poder. O único quadro que tinha essa visão de poder sistêmico era José Dirceu, que se perdeu deixando disseminar uma imagem de superpoderoso que o tornou presa fácil no “mensalão”.
No campo político-jurídico, hoje em dia o PT depende do trabalho solitário de poucos deputados: Wadih Damous, Paulo Teixeira e Paulo Pimenta.
Inegavelmente, foi essa incapacidade de entender o poder de forma ampla que acabou sendo o ponto fatal no enfraquecimento do partido e do governo.
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