Sicário: Soberania, uma ideia em desuso?

Filme com Benício del Toro mostra que a CIA ainda age de modo tão brutal quanto os senhores do tráfico.

Léa Maria Aarão Reis* – Carta Maior – 30/10/2015

reprodução

Além da maldição que paira sobre as nações detentoras de cobiçadas reservas de petróleo, outra se soma aos alvos das intervenções econômicas e políticas desestabilizadoras, permanentes, por parte do Império. São nações que se encontram em espaço geográfico crítico para a sobrevivência e garantia da sua soberania, e, no caso do México, têm os Estados Unidos da América sentados sobre sua cabeça. De soberano o país tem, cada vez mais, menos um pouco.

Este é o tema do filme Sicário, terra de ninguém (Sicario/2015), como anuncia o título. Cenário de uma região onde a disputa pelos cartéis de drogas e o seu extermínio, há décadas segue descontrolada – guerra sem fim e sem resultados – o epicentro fica na ciudad de Juarez, favelizada, com mais de dois milhões de habitantes. Lá, a CIA e outras agências americanas não têm jurisdição para atuarem. Trabalham nas sombras e agem ilegais, e de modo tão brutal quanto os senhores do tráfico.

Neste filme do canadense Dennis Villeneuve é eloquente um diálogo durante o duelo final entre um sicário (o matador, o mercenário) atuando junto com a CIA e outros agentes americanos e um chefão do tráfico. Pergunta o chefe mexicano, sentado na sua mesa, jantando e rodeado pela mulher e pelos filhos, todos sob a mira do ex – advogado colombiano transmudado em justiceiro (o papel é do excelente ator porto-riquenho Benício Del Toro cuja carteira é recheada de prêmios internacionais): “Eu lamento a morte de sua mulher degolada e da sua filha jogada num tanque de ácido. Mas você sabe bem com quem aprendemos a ser assim violentos.”
Pano rápido.
Villeneuve é autor de uma bela produção canadense que, com o tempo, vai se tornando um clássico. Chama-se Incêndios (Incendies/2010). É a trajetória de uma mulher árabe que, ao morrer no Canadá, deixa aos filhos uma herança surpreendente. O roteiro do filme é perfeito e a narrativa dessa fascinante história, apaixonante. Em Sicário, ao contrário, o roteiro filmado é de um estreante, Taylor Sheridan, e, confuso, tende a manipular a trama para, de modo sutil, justificar a extrema violência e as violações cometidas pelos americanos em territórios estrangeiros – no caso a zona cinzenta de fronteira entre a cidade americana de El Paso, de um lado, e Juarez, tida como a cidade mais violenta do mundo, do outro. Os bandidos são os traficantes mexicanos que devem morrer. Os mocinhos, os sicários, os policiais – fardados e à paisana – e os vingadores. Eles sobrevivem.
Dennis Villeneuve já provou em seus filmes anteriores que sabe dirigir momentos de grande tensão, e aqui repete a proeza. É perfeita a sequência de um gigantesco engarrafamento na fronteira.
Mas a história gira em torno da destemida agente do FBI Kate Macy, aqui o símbolo de uma moral que (ainda) perduraria, pelo menos na visão de Villeneuve e de Sheridan, e cuja dedicação e coragem fazem com que seja convidada a integrar uma equipe mista cujo objetivo é capturar o tal chefão do crime mexicano. Aos poucos, Kate percebe que sua crença no que reza a lei nem sempre é levada ao pé da letra. Ela descobre que foi escolhida para a missão como decoração, enquanto representante do FBI, o que confere legitimidade à ação.
Há uma observação de Del Toro à agente Kate, decisiva para entendermos do que se trata. “Você assina este relatório provando que tudo foi feito às claras e aconselho que depois vá para uma pequena cidade onde haja necessidade da implantação da lei. Porque aqui, Kate, isto não é para você. Aqui é a terra de lobos e você não é um lobo.”
A função de Kate (atriz Emily Blunt) é servir de contraponto moral na história das transgressões tramadas em obscuros bastidores às quais, diga-se – e não de passagem -, nós, cidadãos comuns, nunca conheceremos.  Se por um lado é estereótipo, por outro é bom sempre relembrar.
Torturas: “Você vai ver o que é o inferno na terra dos ianques”, diz um policial americano numa sessão de tortura ao traficante mexicano, prisioneiro. Matanças, sequestros, limites legais apagados por decisões que são tomadas “distantes daqui, por pessoas que foram eleitas”, comenta um agente.
O estado de direito que se esboroa e propicia o caos com a pobreza, as favelas, os viciados, traficantes, os facínoras. Veem-se, numa montanha de pedra próxima da várzea onde meninos jogam pelada, pintadas em letras garrafais, mensagens da Bíblia.
É nessa várzea nos arredores de Juarez, durante uma pelada da garotada, que se dá a última sequência do filme de Villeneuve. Um tiroteio ao longe, balas tracejantes atravessam o horizonte, o jogo para e o tempo entra em suspenso. Poucos minutos depois, as balas silenciam e a pelada volta ao “normal”. Nada muito diferente do que ocorre em vários bairros, no Rio de Janeiro, regularmente.
Some-se a essa realidade mostrada em Sicário/Terra de Ninguém, a informação recente sobre os novos telegramas do WikiLeaks publicados na revista americana Jacobin por Alexander Main e Dan Beeton. “Eles não mostram vislumbres das atividades mais secretas das agências de informação dos EUA. São, provavelmente, a ponta do iceberg das interferências políticas de Washington na América Latina. Mas evidenciam a persistência e os esforços dos diplomatas dos EUA em intervir contra os governos de esquerda na América Latina. Usam a alavancagem financeira e os múltiplos instrumentos disponíveis na caixa de ferramentas para a “promoção da democracia” – às vezes até através de meios violentos e ilegais.” Bingo.
*Jornalista
Créditos da foto: reprodução
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