O golpismo e as eleições na Argentina

A soberania da América do Sul tem como centro a integração Brasil-Argentina. Um princípio básico ditado pela crise econômica mundial, que enfrenta ataques violentos da direita, inclusive com ameaças golpistas explícitas.

Por Osvaldo Bertolino, especial para o Vermelho

 

Reprodução

O retorno da onda golpista, que triunfou em Honduras e no Paraguai e ameaça a democracia na Venezuela e no Brasil

O retorno da onda golpista, que triunfou em Honduras e no Paraguai e ameaça a democracia na Venezuela e no Brasil

O cientista político e historiador Luis Moniz Bandeira disse em Buenos Aires, segundo o site uruguaio La Onda Digital, que os Estados Unidos não aceitam a unidade entre Brasil e Argentina porque estes países são capazes de formar na América do Sul “um superestado como a União Europeia”. Moniz Bandeira, que estava lançando o livro A formação dos Estados na Bacia do Prata, no início de 2006, analisava “a grande influência do Brasil” na origem dos “países da América hispânica”, um processo histórico que “de alguma maneira continua até hoje”.

Ele lembrou que “a soma do Brasil com a Argentina é uma potência que, em termos de Produto Interno Bruto (PIB), é quase equivalente à Alemanha e muito superior a todo o resto da América do Sul”. Moniz Bandeira avaliava a América Latina de meados da década passada, um cenário que pouco se alterou desde então; os acontecimentos que se seguiram deram inteira razão ao seu diagnóstico.
Colapso da Alca

Segundo ele, “os países da América Central para cima estão na órbita norte-americana e em alguns casos, inclusive, dependem das remessas de imigrantes que vivem nos Estados Unidos”. “O espaço dos dois países (Brasil e Argentina) é a América do Sul, e nós não podemos considerar o conceito da América Latina, porque é étnico”, disse ele. Por isso, o Brasil propôs a criação da Comunidade Sul-Americana de Nações, unindo o Mercosul com a Comunidade Andina (Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela).

Como consequência, o historiador considerou que “há uma guerra psicológica em curso na América do Sul”. Ele acrescentou que o governo norte-americano “está tentando penetrar” na América do Sul “através da Colômbia, mas enfrenta a resistência da Venezuela”. Além disso, “já perdeu a Bolívia e está muito preocupado”. “Os Estados Unidos não compreendem que figuras como Hugo Chávez na Venezuela e Evo Morales na Bolívia existem porque o Brasil é governado por Luiz Inácio Lula da Silva, e a Argentina, por Néstor Kirchner”, acrescentou.

O resultado é que o projeto norte-americano de criar a Área de Livre-Comércio das Américas (Alca) “entrou em colapso”. “A situação econômica e financeira dos Estados Unidos é muito difícil e ainda por cima eles foram derrotados no Iraque e no Afeganistão”, afirmou. Ele disse ainda que os Estados Unidos têm 30 milhões de pessoas abaixo do nível de pobreza e dependem basicamente da indústria bélica. “Mas isso chegou a um limite”, afirmou. “A América do Sul não tem saída se não se unir, e o eixo dessa união pode ser formado por Brasil, Argentina e Venezuela”, analisou.

Chaga política
Esse diagnóstico explica por que todos os projetos políticos da direita na região têm a mudança da política externa como ponto chave de suas propostas. Na Argentina, assim como no Brasil, nos debates de todas as eleições desse período pós-neoliberalismo e de luta pela integração sul-americana essa questão pegou fogo. Enquanto o campo governista defende a diversificação das exportações e a prioridade ao intercâmbio local, a oposição prega a volta daquela crença arrogante e míope da “era Carlos Menem” segundo a qual alguns iluminados podem manipular o mercado financeiro dominado por Estados Unidos e União Europeia com a promessa de levar a economia local ao nirvana. As sucessivas derrotas da direita, contudo, indicam que o desastre neoliberal é uma dolorosa lembrança para a maioria dos eleitores da região.

No caso da Argentina, o sinal mais nítido dessa chaga política e econômica foi a cessação de pagamentos da dívida externa. Na ocasião, o prestigiado economista do MIT (Massachusetts Institute of Technology) Paul Krugman disse que as crises financeiras relacionadas à dívida externa do México em 1995 e da Ásia em 1997/1998 eram provavelmente apenas os dois primeiros atos de uma peça em três atos. “O desastre que afundou o peso argentino em 2001/2002 representou claramente o princípio do terceiro ato — mas ainda não sabemos como se desenrolará o resto da peça”, disse ele.

Os governos de Néstor e Cristina Kirchner viram que o furacão gerado pela quebra do cassino global traria novos sobressaltos e optaram por outra via. Enquanto isso, a direita neoliberal insistiu na reedição da receita que levou o país ao colapso, centrada no alto endividamento externo — em grande parte pelo setor privado com o aval do governo — e na dolarização da economia, que resultaram em um problema insolúvel: capacidade industrial ociosa e montanhas de dívidas.

Relações carnais
Com as exportações em queda, não havia como cobrir os empréstimos e as reservas em moeda estrangeira começaram a ser queimadas. A solução foi contrair novos empréstimos para fugir da falência. Entrou em cena, então, o principal instrumento que o império norte-americano tem utilizado para impor seu receituário: o famigerado Fundo Monetário Internacional (FMI). No entanto, depois de aportar o “socorro” exigindo em troca condições impossíveis de cumprir, veio a crise política.

Na verdade, a Argentina refletia a transformação do capitalismo na América Latina nos anos da “era neoliberal”, quando pelo menos dois ciclos políticos se cumpriram. O primeiro foi o lançamento do novo projeto hegemônico, o neoliberalismo, marcado pela condução anglo-saxã de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, e liderado por Augusto Pinochet (Chile), Calos Menem (Argentina), Carlos Salinas de Gortari (México), Alberto Fujimori (Peru), Andrés Perez (Venezuela), Gonzalo Sánchez de Lozada (Bolívia) e Fernando Collor de Mello (Brasil).

Perseguidos pela lei — alguns ainda estão foragidos —, eles foram substituídos, em um segundo ciclo também marcado pela condução anglo-saxã (desta vez com Bill Clinton e Tony Blair), por presidentes mais precavidos — chegaram a mudar a lei, como fez FHC, para criar proteções em caso de serem levados aos tribunais —, mas igualmente nefastos. A virada à esquerda, iniciada com a eleição de Hugo Chávez na Venezuela, despertou o ódio dessa gente.

O fato de a América Latina ter cumprido penosamente dois ciclos da “era neoliberal” faz com que a direita se veja às voltas com enormes dificuldades eleitorais que, em bom português, tenta vender a ideia de relações carnais com os Estados Unidos, a exemplo do que fazia Carlos Menem, como uma boa opção para a região. Daí o retorno da onda golpista, que triunfou em Honduras e no Paraguai e ameaça a democracia na Venezuela e no Brasil.

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