Papa Franciso ou Perón com batina?

Bergoglio falou dos braços estendidos do Cristo Redentor, mas ao vê-lo a bordo do papamóvel com seu talentoso manejo da comunicação com as massas, é fácil associá-lo mais a um líder político que a um mero pastor dirigindo-se ao seu rebanho. Por baixo da batina do Papa existe um político, um político católico, que segunda-feira trouxe ao Brasil seu projeto para refundar a igreja. Por Dario Pignotti

Dario Pignotti

Rio de Janeiro – Como se fosse Juan Domingo Perón com batina. Desde que aterrissou segunda-feira (22) no Rio de Janeiro, o papa Francisco praticamente não parou de estender os braços aos fiéis, em um gesto similar ao que o líder nacionalista argentino, falecido em 1974, realizava diante do povo da sacada da Casa Rosada.

Bergoglio falou dos braços estendidos do Cristo Redentor, mas ao vê-lo a bordo do papamóvel com seu talentoso manejo da comunicação com as massas, é fácil associá-lo mais a um líder político que a um mero pastor dirigindo-se ao seu rebanho. Por baixo da batina do Papa existe um político, um político católico, que segunda-feira trouxe ao Brasil seu projeto para refundar a igreja.

Bendito engarrafamento
O papa Jorge Mario Bergoglio iniciou sua primeira viagem internacional após ser coroado em 13 de março, protagonizando um congestionamento de trânsito na principal avenida do Rio de Janeiro quando o veículo que o transportava ficou preso entre fiéis – que o saudavam com fervor – e um ônibus.

Bergoglio alterou “motu proprio” a agenda elaborada em maio pelo Vaticano e a Arquidiocese do Rio, para incluir um recorrido pelo centro carioca, pouco depois de aterrissar na Base Aérea do Galeão, aproximadamente as 17h de ontem e assim poder tomar contato direto com o público antes de comparecer à recepção oficial no Palácio da Guanabara, onde o aguardava a presidenta Dilma Rousseff.

Indiferente ao tumulto em sua volta, o chefe de estado vaticano não deixou de acenar a mão direita como um pop star, saudando o público com a janela baixa e até beijou um bebê alcançado por uma garota magra, ágil, que burlou o cordão de segurança quando o veículo cinza ficou literalmente parado a três quadras do Sambódromo.

Neste momento se observaram gestos desesperados nos engravatados agentes de segurança, impotentes para frear os fiéis.

Foi uma situação inusitada, objetivamente muito arriscada.

O ex-arcebispo portenho surpreendeu inclusive quem estava advertido de seu estilo pouco ajustado a protocolos, ao vê-lo expor-se mais do que o pensado ao risco de um eventual ataque.

Depois do incidente ocorrido a bordo de um Fiat cinza, o visitante passou a um papamóvel sem blindagem, outra temeridade que leva sua marca, para continuar saudando a multidão no centro carioca, já protegido por um cordão de voluntários que participarão, a partir de hoje, da Jornada Mundial da Juventude.

Tão político como místico, o chefe de estado vaticano veio à América Latina com uma missão: reacender a abatida mística católica entre os jovens do continente que representa a reserva demográfica do catolicismo.

Em seu primeiro discurso disse que veio ao Brasil em nome de Jesus “para alimentar a chama de amor fraterno que arde em todo coração e desejo que chegue a todos e a cada um a minha saudação. A paz de Cristo esteja convosco… a juventude é a janela pela qual entra o mundo”.

“Aprendi que, para ter acesso ao povo brasileiro, tem que entrar pelo portal de seu imenso coração, permitam-me, pois, que bata suavemente nesta porta… peço licença para entrar e passar esta semana”.

Bergoglio está obrigado a frear a sangria para as igrejas evangélicas no continente e particularmente no Brasil, o país católico mais populoso do mundo, onde os neopentecostais são 19%, segundo uma pesquisa da Datafolha. E enquanto a maioria dos católicos passa pouco pela igreja e não leva muito em conta a palavra dos padres, os evangélicos vão frequentemente, obedecem aos pastores e pagam “religiosamente” o dízimo.

Ainda assim o Brasil é a maior potência católica do mundo e o Cristo Redentor (ao qual poderia visitar em alguma de suas fugas do protocolo) continua abrindo seus braços do alto do Corcovado, que se vê do aeroporto onde aterrissou Bergoglio. Mas as estatísticas indicam que a estátua encolhe.

Na década de 1930, quando o Cristo foi erguido, 98% dos brasileiros eram católicos, na década de 90 o catolicismo retrocedeu à 75% e em 2007, baixou à 64%. Desde então até hoje, o êxodo para o rebanho pentecostal não parou e, em junho deste ano, a cifra baixou à 57%, segundo a consultora Datafolha.

Para este papa gesticulador, o recorrido realizado ontem, das ruas do populoso centro carioca ao senhorial Palácio da Guanabara, sede do governo, pareceu seguir o roteiro de uma mensagem: antes de ir ao encontro com as autoridades, preferiu tomar um banho de povo.

Francisco desembarcou no país seis anos depois que seu predecessor Joseph Ratzinger, cujo discurso germânico contra o aborto deixou perplexo seu anfitrião de então, Luiz Inácio Lula da Silva, que mal pôde dissimular a contrariedade frente tanta insolência diplomática.

Não houve, no texto lido em um português decoroso por Francisco, nenhum tema dos que causam fricções entre o Vaticano e Brasília.

“Não tenho ouro nem prata, mas trago o mais precioso que me deram: Jesus Cristo”, disse o jesuíta que escolheu chamar-se Francisco pouco depois de concluído o Conclave papal de março, quando seguiu o conselho do cardeal franciscano brasileiro Claudio Hummes, um velho amigo de Luiz Inácio Lula da Silva e moderado simpatizante da Teologia da Libertação.

“Nossa geração se mostrará à altura da promessa que há em cada jovem quando saiba oferecer espaço, tutelar as condições materiais e espirituais para seu pleno desenvolvimento”.

Dilma escutou com atenção o visitante e o saudou com beijos na face.
Rousseff não é católica de missa dominical e, alguns anos atrás, declarou algo que continua pensando: a mulher que aborta não pode ser castigada pela lei.
De qualquer modo, isso não é obstáculo para que se tenha estabelecido uma evidente afinidade entre a primeira presidenta brasileira e o primeiro papa argentino.

Sua intervenção eludiu misticismos para concentrar-se no político e social, enquanto a duzentos metros do Palácio da Guanabara, os jovens protestavam, como o fazem quase semanalmente desde junho, início da revolta que causou uma crise severa no governo.

Dilma disse, olhando para o líder católico, “lutamos contra um inimigo comum, a desigualdade social… é uma honra redobrada ter o primeiro papa latino-americano”.

“Um homem que vem do povo latino-americano, da nossa vizinha Argentina, agrega mais condições para criar uma aliança (entre o Governo brasileiro e a Igreja católica) de combate à pobreza e de disseminação de boas experiências”, acrescentou a chefa do terceiro governo consecutivo do Partido dos Trabalhadores.

Uma palavra de Francisco
Pouco depois que o Papa e Dilma deixaram o Palácio da Guanabara, a polícia avançou violentamente contra os jovens que realizavam um protesto contra o governador Sérgio Cabral, principal alvo das mobilizações que sacodem o Rio desde junho.

A ação brutal da Polícia Militar do Rio e de São Paulo foi motivo de repúdio generalizado nas primeiras mobilizações de junho passado e essa indignação contribuiu a que as mobilizações crescessem até incendiar a fúria em dezenas de cidades.

Na segunda os indignados cariocas incendiaram um boneco representando o governador Cabral, que acusam de corrupção e de apadrinhar a polícia que estabeleceu um estado paralelo nas favelas, onde há fortes indícios de que atua coordenadamente com os esquadrões da morte. Há duas semanas a tropa de choque assassinou 10 pessoas em uma favela, como represália às manifestações.

O papa poderá escutar denúncias de violações de direitos humanos, se quer, quando fale com os vizinhos que o receberão esta semana em uma capela da favela de Manguinhos, em uma zona que chegou a ser tão violenta que ganhou o apelido de “Faixa de Gaza”.

Cronistas que estiveram segunda-feira dentro do Palácio da Guanabara afirmam que dali se escutavam os estouros das bombas e disparos de armas (não letais?) da polícia.

Se Bergoglio as ouviu, ou se seus assessores lhe informam hoje a magnitude da repressão, não cabe outra coisa que expressar sua misericórdia com as vítimas e censurar os repressores.

@DarioPignotti

Tradução: Libório Júnior

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