O espectro e a mordaça do horizonte

Não estamos mais diante do espectro do comunismo. O capitalismo já assume os traços de nossa sombra. Assim, o título do filme de George Clooney, ‘Boa noite e boa sorte’ (2005), desponta com feições aterradoras quando o prenúncio da segunda-feira nos desperta às 6:00 – 6:05; 6:10; 6:15 – com o reverso da utopia: “Bom dia e boa sorte”.

Por Flávio Ricardo Vassoler*

Estados Unidos, após a Segunda Guerra Mundial. Um espectro ronda a América, o espectro do comunismo. Todas as potências do Velho Oeste uniram-se numa rentável aliança contra esse espectro: o Tio Sam e Wall Street, Hollywood e o Pentágono, a CIA e o senador Joseph McCarthy. 

Que partido de oposição não foi acusado de comunista por seus adversários no poder? Que partido de oposição, por sua vez, não lançou contra os elementos mais avançados da oposição e contra os seus adversários reacionários a pecha então infamante de comunismo? 

Duas conclusões decorrem desse fato:

1ª) O comunismo já era reconhecido como força por todas as potências do Velho Oeste. 

2ª) Já era tempo de os comunistas serem expostos abertamente, a todo o continente americano, com seu modo de ver, seus objetivos, suas tendências, opondo à mera lenda do espectro do comunismo uma verdadeira caça às bruxas. 

Com esta finalidade, reacionários de várias facções reuniram-se em Washington e esboçaram o memorando que se segue, a ser publicado em inglês, francês, alemão, espanhol e português, com imediata subscrição dos militares da América Latina. 

Assim falou o senador Joseph McCarthy. 

Nesse clima de soslaios sorrateiros, delações e dedos em riste, é preciso saudar um amigo e lhe desejar que o acaso vigiado não o enquadre como subversivo: 

− Boa noite e boa sorte (2005), filme dirigido por George Clooney. 

Um jornalista do canal CBS ousa enfrentar o senador do estado de Wisconsin. A CIA já conhece até a disposição dos móveis em seu apartamento. Edward R. Murrow, suposto “simpatizante do comunismo”. 

− O oficial Milo Radulovitch, cujo pai é sérvio, foi exonerado da Aeronáutica por meio de um julgamento em que nenhuma prova de comunismo foi apresentada. A Lei de Segurança Nacional pretende deportar (supostos) comunistas e desmantelar os sindicatos e os partidos de oposição. A Lei de Segurança Nacional amordaça os direitos individuais. Não podemos defender a liberdade fora dos Estados Unidos, se aqui dentro a abandonamos. 

O destemor de Edward Murrow para se contrapor a McCarthy no auge da caça às bruxas nos faz pensar sobre as tendências midiáticas após a distensão da guerra fria. 

Em meio ao macartismo, os meios de comunicação conservadores precisavam se referir à antítese soviética. Não era prudente silenciar sobre o que os inimigos faziam. Os amigos (patrocinadores) se sentavam à direita. Os inimigos vermelhos estavam logo ali, à esquerda, e os telespectadores e leitores eram hipnotizados pelo medo de que a erupção subversiva viesse a acontecer a qualquer momento. A Sagrada Família era convocada para marchar com Deus pela Liberdade. A dona-de-casa e o funcionário do escritório que não vê a hora de receber uma nova promoção começam a corroborar o editorial chapa branca que inocula a importância do DOPS, do DOI-CODI e de seus porões para acareações sob capuzes. 

Mas e hoje? À exceção dos meios de comunicação à esquerda do consenso midiático que só faz reproduzir as notícias das agências chanceladas, nós ouvimos ou lemos, atualmente, a palavra “capitalismo”? A realidade social historicamente configurada se transforma em extensão da natureza por conta do silêncio em relação a outras possibilidades de estruturação da sociedade. 

No início de junho, segundo a mídia chapa branca, a tormenta tropical Andrea atingiu a Flórida com fortes chuvas e ventos. No início de junho, eu fui à embaixada de Cuba para obter meu visto de entrada para a ilha que fica a pouco mais de 150 quilômetros da Flórida e que também foi afetada pela tormenta. Uma simpática funcionária da embaixada bem pontuou a omissão dolosa: 

− Acaso os barões da mídia brasileira noticiaram que Cuba e os cubanos foram atingidos pelo furacão? 

Parece haver um efeito algo paradoxal na onipotência do consenso midiático conservador em nosso cotidiano. O “capitalismo” sequer é mencionado pelos ideólogos da grande imprensa. O silêncio também paira sobre as vozes que clamam por um outro mundo possível. No primeiro caso, o “capitalismo” ausente se torna onipresente e delimita os marcos de nossa imaginação, o enquadramento de nossas vivências – “assim é a vida”. No segundo, o silêncio doloso coage as vozes de transformação à dúvida sobre sua efetiva existência social. O silêncio ilha e isola o ímpeto por mudança. Quando a transformação vem à tona por meio de manifestações de massa, as categorias críticas, há muito amordaçadas pela reação, já não estão disponíveis. Assim, as reivindicações amorfas e contraditórias ressoam, em grande medida, os mantras dos barões da mídia contra a política e os políticos – enquanto isso, os lobistas do grande capital financeiro e industrial continuam a usurpar a esfera pública com seus interesses privados que patrocinam telenovelas. Telejornais fazem coro às reclamações sobre o trânsito em São Paulo, enquanto seus comerciais inundam o desejo dos telespectadores com o mais novo automóvel do ano. 

Há pouco mais de 10 anos, li uma entrevista do professor Antonio Candido sobre o socialismo em um livro editado pela Fundação Perseu Abramo. A certa altura, Candido falava sobre disputa de hegemonia ideológica e fez uma colocação que não esqueci desde então. O professor afirmou nutrir algumas reservas e críticas com relação a Cuba, mas sempre considerou temerário trazer tais colocações à tona no contexto do consenso midiático brasileiro que se estabelece como uma sucursal da CIA. Talvez Candido quisesse dizer que a autocrítica de e da esquerda pressupõe uma antítese midiática que tenha força de contestação e que não esteja ilhada pelo consenso reacionário. 

Lá se vão mais de 20 anos desde a queda do Muro de Berlim e da União Soviética. O fim da história propugnado por Francis Fukuyama reconfigurou o capitalismo neoliberal e monopolista – suposta contradição nos termos e nas práticas que a América Latina e sua esfera pública sitiada tanto sabem (re)produzir. Não estamos mais diante do espectro do comunismo. O capitalismo já assume os traços de nossa sombra. Assim, o título do filme de George Clooney, ‘Boa noite e boa sorte’, desponta com feições aterradoras quando o prenúncio da segunda-feira nos desperta às 6:00 – 6:05; 6:10; 6:15 – com o reverso da utopia: 

− Bom dia e boa sorte. 


*Flávio Ricardo Vassoler é escritor e professor universitário. Mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é autor de O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos) e organizador de Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade (Editora Intermeios). Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, http://www.subsolodasmemorias.blogspot.com/, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

 

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